Daemons of the Shadow Realm estreia com mistério forte, boa construção de mundo e um tom que ainda busca equilíbrio

 


Os três primeiros episódios de Daemons of the Shadow Realm já deixam claro que o anime tem ideias muito interessantes nas mãos. A série começa com uma virada que chama atenção logo de cara, mas o que realmente sustenta esse início não é apenas o choque entre passado e presente. O que prende mesmo é o mistério em torno de Asa, o lugar de Yuru nesse mundo e o tamanho da mentira que cerca a vida dele desde o começo.

O anime abre com uma daquelas revelações que tentam reorganizar a percepção do público sobre o cenário. A princípio, tudo parece seguir uma lógica mais próxima de um Japão feudal isolado, mas logo fica claro que a história se passa, na verdade, em um mundo moderno. É uma virada visualmente eficiente, ainda mais quando os sinais começam a aparecer e o contraste entre a vida de Yuru e a realidade ao redor se torna impossível de ignorar. Só que, sinceramente, essa não é nem a parte mais interessante do começo.

O que realmente dá direção à história é a descoberta de que a “Asa” que conhecíamos não é exatamente a verdadeira Asa. É aí que Daemons of the Shadow Realm deixa de ser apenas uma fantasia com reviravolta de ambientação e passa a construir um eixo dramático muito mais forte. A jornada de Yuru, pelo menos por enquanto, se organiza em torno disso: encontrar a verdadeira Asa, obrigá-la a levá-lo até os pais e finalmente arrancar deles respostas sobre sua origem, sobre o motivo de seu nascimento e, principalmente, sobre por que ele foi deixado para trás enquanto Asa não foi.

O mistério funciona porque Yuru está tão perdido quanto o público

Uma das forças desses episódios está justamente na desorientação do protagonista. Até pouquíssimo tempo atrás, Yuru estava apenas tentando se tornar um caçador da vila para ajudar sua comunidade a depender menos de comida vinda de fora. De repente, ele é jogado em um cenário com Daemons, tecnologia moderna, soldados armados e uma quantidade absurda de morte acontecendo ao seu redor. O anime acerta ao fazer com que esse choque não seja apenas um detalhe de ambientação, mas parte central da experiência do personagem.

Como espectadores, a gente até entende mais coisa do que ele, porque reconhecemos a tecnologia moderna e ainda conseguimos acompanhar algumas cenas da própria Asa. Yuru, por outro lado, está totalmente no escuro. E isso ajuda bastante a manter o mistério vivo, porque a série não entrega um protagonista que já entende as regras do jogo ou que rapidamente se adapta a tudo. Ele está perdido, desconfiado e cercado por pessoas que ou sabem quase tão pouco quanto ele, como Left e Right, ou escondem informações de propósito, como Dera e Hana.

Asa é, por enquanto, a figura mais intrigante da série

Se Yuru funciona como ponto de entrada para o espectador, Asa acaba sendo a peça mais instigante desse começo. O anime sugere que o massacre na vila talvez não seja tão simples quanto parece à primeira vista. Existe até a possibilidade de que, do ponto de vista dela, toda a invasão tenha sido uma operação de resgate, uma tentativa de voltar para salvar o irmão depois de anos de separação. Dentro dessa lógica, a destruição que acompanha esse retorno deixa de parecer puro sadismo e passa a carregar outra camada, mais emocional e moralmente ambígua.

Isso dá à personagem uma presença muito mais interessante do que a de uma simples antagonista brutal. Asa parece carregar convicção real, dor acumulada e um senso próprio de justiça, ainda que tudo isso venha embalado em violência extrema. E quando uma série consegue criar esse tipo de dúvida logo nos primeiros episódios, ela naturalmente ganha força.

O maior problema até aqui é o tom

Se tem um ponto que realmente atrapalha esse começo, é a dificuldade do anime em equilibrar o próprio tom. O primeiro episódio é praticamente um banho de sangue. A violência é direta, pesada e opressiva, com os moradores da vila sendo mortos por armas modernas ou destruídos por Daemons que eles nem conseguem enxergar direito. É um início cruel, quase sufocante, e que parece querer vender a série como algo bem mais sombrio e brutal.

O problema é que os episódios dois e três mudam bastante essa energia em vários momentos. Boa parte deles se apoia em uma dinâmica de peixe fora d’água, com Yuru e seus dois companheiros Daemon reagindo ao mundo moderno como se estivéssemos em uma comédia de deslocamento temporal. Não é que essas cenas sejam ruins por si só. Algumas até funcionam bem. Mas a transição entre o horror extremo do começo e esse humor mais leve é muito brusca. Fica aquela sensação de que a série ainda não encontrou exatamente a medida entre sua violência, seu mistério e sua comicidade.

Chamar isso de um contraste estranho talvez ainda seja pouco. A mudança é realmente abrupta, e isso afeta a forma como o espectador processa o que acabou de ver. Quando a obra ainda está tentando vender o peso emocional de um massacre, cortar logo depois para um humor mais deslocado pode enfraquecer bastante o impacto do trauma.

Yuru ainda precisa reagir mais ao que viveu

Outro ponto que chama atenção é a reação do próprio Yuru ao colapso completo da sua realidade. Até aqui, ele parece estranhamente pouco abalado em vários momentos. E isso incomoda um pouco, porque não estamos falando apenas de uma mudança de cenário. O mundo inteiro dele foi desmontado. Ele descobriu que viveu cercado de mentiras, que muitas das pessoas ao redor o manipulavam usando seu amor pela irmã, e ainda testemunhou a morte brutal de vários rostos que faziam parte do seu cotidiano.

Mesmo assim, sua resposta emocional ainda parece contida demais. O anime mostra que ele não é ingênuo a ponto de confiar plenamente em qualquer um, e isso é importante. Ele claramente entende que Dera e Hana estão ligados ao grupo que o enganou durante toda a vida, e esse detalhe não passa despercebido para ele. Só que ainda falta uma reação mais contundente, mais humana, mais suja até, diante do horror que ele viu e da revelação de que sua vida inteira foi construída em cima de manipulação.

Se a série quiser que Yuru se torne um protagonista realmente forte, esse é um ponto que precisa amadurecer. Ele não precisa virar alguém histérico ou quebrado o tempo todo, mas precisa começar a mostrar mais personalidade, mais conflito interno e mais agência dentro da própria história.

Mesmo com os tropeços, a estreia prende

Apesar dessas ressalvas, esses três episódios funcionam bem como introdução. O mundo é interessante, o mistério realmente desperta curiosidade e o elenco de apoio já consegue se destacar cedo, o que sempre ajuda muito em uma série desse tipo. Existe uma boa base aqui para algo maior, principalmente porque a narrativa parece guardar segredos suficientes para sustentar o interesse por um bom tempo.

No fim das contas, Daemons of the Shadow Realm estreia como uma obra envolvente, mas ainda um pouco descompassada. O anime tem imaginação, tem mistério e tem personagens com potencial, especialmente Asa. O que ainda falta é encontrar um equilíbrio melhor entre seus diferentes tons e transformar Yuru em alguém mais ativo, mais marcado pelos acontecimentos e mais forte como centro emocional da trama. Se conseguir fazer isso, a série pode crescer bastante daqui para frente.

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